Na passada sexta-feira, normalmente acontece-me isto várias vezes da semana quando paro nos semáforos, e lá andam aqueles distribuidores de publicidade ou de jornais gratuitos, que muito gosto de levar para casa, para depois passar uma vista de olhos e me actualizar com os seus conteúdos. E esta sexta-feira, não fugiu à regra, lá veio uma miúda com o “SEXTA“, que peguei e o atirei para o lado do passageiro. A páginas tantas, ao olhar para a capa do dito, eis que algo me chamou a atenção, um artigo do actor José Pedro Gomes, que passarei a transcrever, com os devidos créditos do autor.
“O que é que está a ver um vesgo que tem um olho a «olhar» para a direita e o outro a «olhar» para a esquerda? Vê o que está à direita ou o que está do outro lado? Claro que estou a partir do princípio que não deve ser possível ver os dois lados ao mesmo tempo, caso em que os vesgos seriam já conhecidos por essa capacidade extraordinária e seriam muito mais utilizados em cargos onde isso seria mais útil ao país ? a política, por exemplo.
Poderíamos imaginar um debate no Parlamento com um orador a acusar um lado da bancada mas a olhar para o lado oposto. Haveria uma certa confusão ao princípio, mas depois a clarividência de uma pessoa que vê os dois lados ao mesmo tempo conquistaria a adesão não só dos correligionários, claro, mas também dos opositores.
Atenção: eu percebi entretanto que esta ideia é ficção e que não há ninguém neste Governo que tenha esta capacidade. Se houve, foi despedido antes de tomar posse.
É que eu cheguei à conclusão que há algo de vesgo neste Governo. Porque, se formos a ver, não tem acertado em nenhuma das metas mais importantes que impôs a si próprio.
Reforma na justiça (fundamental para haver democracia, economia séria, etc…): cortou as férias aos juízes (que já não as gozavam) mas não lhes deu meios nem melhorou a legislação.
Reforma na saúde: começou por fechar serviços antes de arranjar alternativas melhores; gastou milhares em aparelhos para os médicos «picarem o ponto», mas torna mais atractivo eles saírem para o privado.
No ambiente ainda não tomou uma medida que seja para obrigar as casas que estão a ser construídas a terem painéis solares. Isto serviria para o país poupar gás e electricidade para aquecimento e, portanto, poupar divisas e, é bom lembrar, não gastar nem agora nem no futuro as quotas de emissões de carbono que vamos todos ter de pagar. Já se sabe há anos que com um aumento de cinco por cento no preço da construção, as casas ficam com uma qualidade que vai originar poupanças energéticas que pagam esse acréscimo em muito pouco tempo. E era só escrever uma lei.
Na educação, as reformas que foram feitas apontam, as mais visíveis, para o nivelamento por baixo do ensino ministrado. O ensino já não é obrigatório até ao 9.º ano: é obrigatório passar toda a gente até terem o 9.º ano – o que é muito diferente! E já se fala em alargar a bandalheira obrigatória até ao 12.º ano! As «novas oportunidades» são uma vigarice completa, onde, ao lado de alunos que estão a ter a última oportunidade de ter uma profissão, estão tipos a chular o sistema e a enganar os pais e o país. Esta é a avaliação que podemos fazer do trabalho da ministra.
E já nem falo da avaliação de professores ? onde a ministra fez uma entrada à patada numa questão que é tão delicada como fundamental.
Isto é: para mim este Governo de vesgos preferiu tomar medidas considerando que toda a gente é preguiçosa e mal formada, em vez de olhar para o estado miserável em que nos puseram anos de medidas tomadas por gente que não vê nada para nenhum dos lados.
O que me incomoda é olhar para todos os lados e não ver saída…”
IN “SEXTA” por José Pedro Gomes
zpgomes@sapo.pt



Ora aqui está um texto de um humorista que tem de ser levado muito a sério. Até porque toca em alguns pontos essenciais da nossa desgraçada actualidade.
Comentário por peciscas — 2008/12/11 @ 16:38
Gostou deste artigo? Sinceramente? Eu por acaso gostei do seu artigo sobre a Débora. Mas este? Eu também o li e quando cheguei ao fim leio: “O que me incomoda é olhar para todos os lados e não ver saída…” Eu julgava que o Pedro Gomes tivesse as soluções. Então ele sabe que tudo está mal, o governo não acerta uma, e ele não sabe como fazer? Se sabe que está mal não sabe como está bem? Aliás já tenho lido este actor e francamente acho-o destestável. Como actor excepcional, como escritor uma nódoa. Ele pelo que eu tenho lido é que não acerta uma. Os artigos dele são uma continuação da conversa da treta. O mal foi ele de tanto a representar (a treta) se habituar a ela.
Comentário por Contente — 2008/12/21 @ 22:04
Pois é, caro contente, há quem goste do que lê, e eu gostei, denota um certo realismo, e aquilo que a maioria dos Portugueses sentem, o que felizmente não é o seu caso.
Cts e volte sempre
Comentário por Beezzblogger — 2008/12/22 @ 22:42